Os fantasmas se divertem

Por: Caroline Borges, Fernanda Rodrigues, Luiza Mascari e Renatta de Castro 

Foto: Carla Albano

Foto: Carla Albano

Ouviu-se um grito no meio da noite, a intercambista portuguesa da República Palmares subiu as escadas afirmando ter sentido alguém deitar em seu travesseiro e lhe sussurrar coisas incompreensíveis. Todas as pessoas da casa já dormiam. No dia anterior outra moradora jurou ter visto uma mulher deitada no chão do seu quarto de madrugada. Pela descrição não poderia ser nenhuma de suas colegas de república.

Seria coincidência o fato de esses acontecimentos estranhos ocorrerem na casa de duas das responsáveis por uma reportagem sobre fantasmas?

Nas ruas de Ouro Preto, em que os casarões antigos guardam tantas histórias, todos parecem ter algo semelhante a contar, seja em tom de brincadeira, de descrença ou de medo. Afinal, a cidade aparenta ser o cenário perfeito para a possível existência de assombrações.

Nas repúblicas estudantis os relatos de aparições deste tipo são frequentes e as histórias de fantasmas se acumulam através das gerações. Muitas das casas hoje ocupadas por estudantes já foram palco de mortes trágicas e misteriosas fazendo com que qualquer estalar de tábuas ou bater de portas encontre um significado inexplicável.

Visitamos algumas destas repúblicas e ouvimos histórias que tiraram nosso sono durante essas semanas.

República Cassino – O Senhor dos Lábios Leporinos

O local onde a República Cassino se localiza hoje foi, há muitos anos, o cemitério da Igreja do Pilar e os moradores relatam, dentre outros acontecimentos estranhos, o aparecimento de um senhor com lábios leporinos, que aparece principalmente em dois quartos e na sala da casa, que os meninos apelidaram de João Vitor.

Dentre os acontecimentos que envolvem esse senhor, está o caso de dois hoje ex-alunos da república, que afirmam ter sonhado, na mesma noite, que eram estrangulados por ele. Um deles afirma ter acordado e visto um vulto atravessando a parede em direção ao quarto ao lado.

Outro relato é o de que a empregada da casa entrou na cozinha afirmando ter conversado com um senhor simpático que estava sentado na sala e perguntou aos moradores quem era ele. Os meninos pediram, então, a descrição do homem. Segundo ela, ele usava roupa preta, um chapéu que cobria quase todo o rosto e tinha lábios leporinos.

República Jardim de Alá – Amália Bernhaus

Antes de virar república a casa onde está situada a Jardim de Alá era a residência de Amália Bernhaus, uma senhora que cuidava de órfãos. Seu filho era viajante e ela era viúva, passando a maior parte do tempo sozinha em casa. Ao voltar de uma de suas viagens o filho a encontrou morta e em estado de decomposição.

Os moradores da república contam que a cadela de estimação da casa costumava latir em direção à porta e através do corredor até o antigo quarto da Amália, como se a acompanhasse até lá. A cadela também se recusava a entrar no quarto e “enlouquecia” quando os meninos colocavam sua casinha dentro dele.

Por causa desses acontecimentos estranhos uma benzedeira já foi chamada para purificar a casa e ao chegar a este quarto começou a chorar compulsivamente.

Outro lugar onde dizem sentir a presença do espírito da antiga dona da casa é na boate, situada abaixo do antigo quarto de Amália, onde uma amiga dos meninos, Maria Dias Lelis, moradora da República Cantinho do Céu e sensitiva, diz sentir respirações mesmo quando não há ninguém por perto.

República Nau sem Rumo – A Velha

As casas em que hoje estão as repúblicas Nau sem Rumo e Pulgatório pertenciam à mesma família e há relatos que ali moravam uma senhora e seus filhos. Essa senhora adoeceu e ficou isolada na casa onde hoje é a Nau e o restante de sua família na casa ao lado. Quando precisava de algo tocava um sino para que a ouvissem.

O morador Bernardo Andrade afirma já ter visto a senhora andando pela casa e seu colega de república Breno Reis diz já ter acordado no meio da noite sendo arrastado para fora da cama, como se alguém o estivesse puxando.

Um ex-aluno já relatou aos meninos casos em que o som da boate ligou sozinho e que se ouviam passos na casa, mesmo quando não havia ninguém.

Em outra história, os moradores jogavam pôquer na sala quando todos ouviram uma risada vinda de um lugar vazio da casa.

República Maracangalha – O Menino do Quarto Branco

De todas as histórias essa é sem dúvida a mais famosa dentre as repúblicas ouro-pretanas, tanto por seu teor bastante assustador, como por indícios reais de que algo muito estranho aconteceu na casa onde a República Maracangalha é sediada hoje.

Havia uma família que morava naquele local, pai, mãe e um filho ainda criança. Os três contraíram tuberculose e foram isolados dentro de casa, pois na época não havia tratamento e a doença era contagiosa e podia ser fatal.

Para que a família não passasse fome, os vizinhos deixavam três pratos de comida na porta da casa e depois os recolhiam vazios. Um dia, apenas dois pratos voltaram. Os vizinhos entraram e descobriram que o pai havia morrido. Depois de recolher o corpo voltaram a trancar a casa e enviar comida aos dois que haviam restado.

Pouco tempo depois apenas um prato começou a voltar e descobriu-se, então, que a mãe da criança também havia morrido. Também desta vez recolheram o corpo e passaram a enviar apenas um prato de comida para o garoto, até o dia em que nenhum dos pratos voltou.

Abriram a casa para recolher a criança, mas ela havia desaparecido.

Quando a república foi fundada não havia móveis ou nenhuma forma de decoração, apenas o retrato do menino chumbado à parede.

Dentre as histórias que os moradores contam das aparições do menino, há uma de que certa vez, durante uma formatura, um homem dormiu na sala sem cobertor e durante a noite sentiu muito frio. Então, na madrugada, um menino veio até ele e entregou uma coberta. No dia seguinte o homem a devolveu para um ex-aluno que parecia com o tal menino e pediu para que ele agradecesse ao seu irmão. O ex-aluno ficou sem entender nada, e o rapaz disse que era um loirinho e baixinho. Os meninos então lhe mostraram esse quadro, e o homem o reconheceu como sendo o mesmo garoto que o entregou o cobertor.

Outra história é a de que as moradoras da república Caixotinho, uma vez roubaram o quadrinho, e a partir de então coisas estranhas passaram a acontecer na casa delas como, por exemplo, panelas caírem, janelas baterem, pratos quebrarem. No dia seguinte elas devolveram o retrato.

Houve também um carnaval em que uma turista disse para um dos moradores: “Que gracinha aquele menininho servindo cerveja pra galera!”, e os moradores estranharam, pois o carnaval na república é proibido para menores de 18 anos e não havia como uma criança ter entrado lá. Eles então mostraram o quadro para a mulher e perguntaram se o tal menino era o mesmo que estava ali, e ela afirmou que sim.

Um dos moradores da casa, na época que batalhava vaga, dizia não acreditar na história do menino. Certa noite, enquanto dormia em um quarto com mais três pessoas, ele ouviu o barulho da porta batendo durante toda noite, porém ninguém mais ouviu nada.

E um dos casos mais impressionantes envolvendo o menino, é o que contam sobre o seu quarto, que é o único pintado de branco na casa, pois, segundo consta, ao pinta-lo de qualquer cor, no outro dia ele amanhece branco novamente. Mas nenhum dos atuais moradores teve a coragem de testar.

Algumas curiosidades envolvendo o menino são:

  • O quadro do menino é pintando no mesmo estilo que o da Monalisa, em que os seus olhos te acompanham em qualquer direção.
  • Nos olhos do menino existe o reflexo de uma mulher pintada. Acredita-se que seria a mãe dele.
  • No cartório de Ouro Preto existe uma ata sobre a morte do casal e o desaparecimento do menino.
  • Após uma infiltração o quadro deixou de ser chumbado à parede e passou a ser apenas pregado.
  • A luz do corredor do quadrinho fica acesa durante a noite em respeito à memoria do menino.