Seco ao sol

Carlos Monteiro

foto: Carlos Monteiro (acervo pessoal)

Por Caroline Borges

Porciúncula é um pequeno município no interior do Rio de Janeiro. Conta com uma população de aproximadamente 19 mil habitantes, muitos dos quais trabalham na produção de charque. O responsável é Carlos Monteiro Ferreira, conhecido por todos como Seu Carlinhos. Nascido em 1934, em Volta Grande, na acolhedora Minas Gerais, Seu Carlinhos teve uma infância difícil, responsável por seu caráter forte conhecido por todos na cidade.

Caroline Borges: Como toda sua história começou?

Carlos Monteiro: Eu tinha cinco anos quando minha mãe e meu pai morreram. Os vizinhos puseram na garupa de um animal e me levaram pra Agostura, perto de Volta Grande. Fui morar com um irmão por parte de pai, mas minha cunhada me batia e isso foi até os 13 anos, quando vim pra Porciúncula trabalhar com meu irmão, onde trabalhei como empregado por 9 anos na charqueada dele. Depois arrendei minha própria charqueada e comecei a matar gado. Começou tudo ai.

CB: Essa é a charqueada de hoje?

CM: Não, tiveram muitas antes. Larguei a charque de Porciúncula e mudei pra Manhuaçu com minha esposa e duas filhas no colo. Vendi a de lá e comprei uma em Ipanema com um sócio, mas não deu certo também e fui pra Itaperuna e depois pra Inhapi, pra depois voltar pra Niterói e abrir outra charque sozinho. Não deu certo também e voltei pra Itaperuna, pra voltar pra Porciúncula mais tarde. Foi assim que comecei a charqueada de hoje.

CB: Muita coisa não deu certo. Teve algum momento em que a dificuldade foi maior?

CM: Claro, foi em 2001, quando perdi tudo que eu tinha e tive que começar do zero. Meus filhos já estavam crescidos, mas eu tinha uma família, esposa, filhos, netos. Foi do charque que tirei meu sustento a vida toda. Não seria depois de velho que isso ia mudar. Consegui conquistar tudo e mais um pouco e hoje tenho uma situação financeira sólida.

CB: Qual a importância do seu trabalho pra porciúncula?

O trabalho não é só meu, não. É dos meus homens também. São eles que ficam debaixo de sol, lutando pelo tanto que eu lutei um dia. Hoje eu ajudo quem eu fui um dia.

A charque é uma carne salgada e seca ao sol, para torná-la própria para o consumo por mais tempo. Há registros de sua produção na América pré-colombiana e no Brasil de hoje, tem maior popularidade no Nordeste. É também a principal fonte de emprego e renda da maior parte da população da pequena Porciúncula.