As travessuras de Roquinho

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Roque Geraldo

Por Thatiana Zacarias Freitas

Roque Geraldo Ferreira Carneiro é um dos 14 filhos da Dona Zita. Ele nasceu com Síndrome de Down, uma doença que requer cuidados especiais. Estudou até a 4ª série do ensino básico, mas foi obrigado a parar de frequentar a escola, pois a cidade de Mariana não possuía, e ainda não possui, estrutura necessária para trabalhar com crianças com necessidades especiais.

Seu dom para pintura foi descoberto logo cedo, ainda quando estava na escola, e, a partir de então sua família iniciou um processo de incentivo à pintura. A entrevista a seguir foi realizada com Roque e sua família (suas irmãs Maria Helena e Neirinha, e sua sobrinha Fabíola), sempre presente em sua vida, e conta um pouco sobre sua trajetória, seu início como artista, relembrando fatos de sua carreira.

Thatiana Zacarias Freitas: Como foi descoberta a vocação para pintura?

Maria Helena: Ele começou a pintar quando estava estudando. Ele estudava numa escola especial, Dr. Gomes Freire. Sua primeira pintura foi feita na parede do banheiro da escola, onde ele pintou uma porção de florezinhas. A diretora, que é muito amiga da nossa família, chegou lá pra saber quem havia feito aquilo. Ele olhou, olhou, olhou, pensou e falou assim: “fui eu”, e a partir daquele instante, então, que começou o incentivo. Começamos a comprar telas, os papéis especiais pra ele começar a pintar.

Thatiana: Então é desde pequeno que vocês o incentivam?

Maria Helena: Nós arranjamos uma professora pra ele uma vez. Ele passou um mês em aula, com a orientação da professora, mas logo ele se desgostou: “ah, essa professora sabe menos que eu, não quero mais não. Quero fazer as coisas do jeito que eu acho que é certo”. Dona Terezinha que foi professora dele, mas ele não quis, achou que era superior a tudo. Quando chega convite para alguma exposição de um artista, ele fala assim: “esse artista aí é meu concorrente”. E não vai à exposição, porque é concorrente. (risos)

Thatiana: Roque, você possuía um ateliê na Rua Direita?

Roque: Sim, ele foi inaugurado em 19 de abril de 1990. Agora eu vim pra cima (o atelier era na rua Direita, e agora ele trabalha em casa), porque lá em baixo todo mundo mexia comigo.

Thatiana: Porque eles mexiam com você?

Roque: Pivete, gente grande, moço, homem não tem sentimento, homem não tem coração, e eu resolvi vir pra cima, mais sossegado pra mim.

Thatiana: Então foi por isso que você fechou o atelier?

Roque: Fechei lá embaixo, e aqui em cima também, desde 2006.

Neirinha: Aqui em cima não, você continuou pintando.

Thatiana: Quando ele fechou o atelier lá embaixo, ele sofria todas essas agressões; isso acontecia por causa de preconceito com ele?

Maria Helena: Às vezes preconceito, às vezes pra roubar, um CD, DVD. Tentaram até estuprá-lo. Então, a gente teve que acabar. Tem até a placa do atelier lá em cima. De vez em quando ele fica saudosista, ele quer que reabra, mas é muito complicado, não temos como dedicar e ficar o tempo todo com ele. Queríamos arrumar uma pessoa pra ajudar, trabalhar junto com ele, mas ele gosta de ficar sozinho e não aceita ajuda. O que ele faz é o que ele faz, é a opinião dele e pronto, acabou.

Thatiana: Quando você trabalhava lá embaixo, como era o movimento?

Roque: Movimento fraco, né?! Meio fraco. Os preços eram assim, 10, 20, 30, 40, 50, por aí.

Thatiana: E a relação dos turistas com o seu ateliê?

Roque: Os quadros não tinham valor.

Thatiana: Roque, você ficava sozinho no ateliê?

Roque: Sim.

Maria Helena: É, porque tínhamos nossa vida aqui em cima (na casa onde residem), nessa correria pra lá e pra cá, então não tinha como ficar 24h com ele.

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Acervo pessoal

Thatiana: Mas não tinha ninguém ajudando no serviço, para a venda das obras?

Maria Helena: Quem fazia tudo era ele mesmo, colocava os preços dele, que ele achava. Ele possui reportagens sobre seu trabalho; a gente foi a Belo Horizonte, fez exposição no SESI em Mariana, em Ouro Preto, em Belo Horizonte diversas vezes, no Palácio das Artes.

Neirinha: Ele tem quadros fora do Brasil, na Bélgica, em Nova York, tem quadros por esse mundo afora mesmo.

Thatiana: Fale um pouco sobre as exposições.

Neirinha: Ele fez uma exposição chamada “Vontade de Vencer”, no SESI, em Mariana, durante um mês. Foram expostos quadros e cartões. Houve outra exposição na Câmara Municipal de Mariana. Uma em Belo Horizonte, no Gutierrez, numa escolinha. Também no Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Todo ano ele é convidado para o mesmo Festival de Inverno.

Thatiana: Roque, você gostou de fazer essas exposições?

Roque: Sim. Mas agora estou escrevendo. É o meu desabafo: “As travessuras de Mariana”. Mas de 2014 a 2015 eu vou voltar a pintar.

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Arquivo pessoal

Thatiana: Os temas dos quadros dele são geralmente casarios e florais?

Neirinha: Sim, porém houve uma época em que ele pintou umas cerâmicas em estilo marajoara. Elas eram perfeitas.

As irmãs contam que sempre que ocorre a época das eleições em Mariana, Roque se revolta, pois para ele a política nessa cidade está uma bagunça. Então ele larga suas pinturas, e começa a escrever, sendo seus escritos uma forma de dar sua opinião sobre essa política marianense.

Thatiana: Sempre quando tem essa época de política ele começa a escrever?

Maria Helena: Ele volta a escrever. Aí daqui a pouco ele esquece e volta a pintar, novamente. Tem uns cartões bonitos que ele faz, sabe? Como se fosse um postal, que a gente aproveita para mandar assim pra aniversário, uma festa, pra amigos, a gente faz dedicatória.

Independente de sua doença, Roquinho é uma pessoa de opinião, que gosta daquilo que faz. Às vezes é muito metódico e gosta de fazer coisas que sejam repetitivas, como contou sua sobrinha Fabíola: “Quando ele cismou, meu tio comprava bolsa para carregar remédio, eram várias sacolas e ele escrevia em uma por uma: Drogaria Bandeirantes, rua tal, nº tal, telefone tal, milhares; acho que foi uma das vezes que ele fechou o ateliê, e fez aquilo por meses e meses.”

Tem seus altos e baixos como qualquer outra pessoa. Possui grande capacidade de observação. Tem uma disciplina que vários gostariam de ter, mas poucos possuem como observou Fabíola: “Ele acorda na mesma hora, toma o café, almoço…”. Gosta de estar por dentro das situações que ocorrem em sua cidade. Situações que o deixam indignado, fazendo-o deixar suas obras para escrever sobre suas indignações, revoltas com os acontecimentos de Mariana. Suas pretensões podem mudar quando em relação à política marianense, mas nunca deixa de lado seu amor à pintura. Ela sempre estará presente em sua vida, pois ela leva sua paixão e disciplina, e espalha sua beleza por todos os cantos do mundo.