Deficiência Visual – Identidade

As dificuldades de adaptação por outro ângulo

Por Carol Rooke, Elmo Alves, Katia Neves e Stela Diogo

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  Nas cidades históricas como em Mariana- MG, alguns são os desafios encontrados pelas pessoas que possuem algumas limitações. Apesar da existência de muitos monumentos centenários cheios de histórias, são encontrados diversos desafios de locomoção para os deficientes e a dificuldade em adaptar-se a cidade é um deles.

  O fato de não existir uma infra-estrutura  na cidade histórica e uma certa coincitização das pessoas no aspecto de acessibilidade, limita a construção de uma demanda que reforce a propagação de incentivos a estruturação e desenvolvimento da sociedade, impedindo o seu crescimento.

  Como exemplo de vida, persistência, adaptação e superação, Anderson Luiz Dias, deficiente visual há mais de dez anos conta sobre suas dificuldades e motivações em viver em uma cidade histórica. Além de relatar os desafios que são enfrentados em seu cotidiano.

Deficiência visual e cotidiano

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  Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde,1% da população do Brasil é formada por deficientes visuais. Dentro deste número encontra-se o estudante, Anderson Luiz Dias, 38 anos, morador da cidade de Mariana – MG, que luta pelos direitos de inclusão dos deficientes na sociedade. Atualmente realiza oficinas sobre braile (linguagem utilizada para leitura e escrita de deficientes visuais) e acessibilidade, na Biblioteca Municipal de Mariana e pretende, futuramente, se dedicar exclusivamente aos estudos para prestar um concurso público. Estudante do 5º período, de Turismo da Universidade Federal de OuroPreto – UFOP.

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  Em sua história, relatou que devido a um glaucoma (um tipo de lesão do nervo óptico que pode provocar a cegueira) a perda da sua visão se iniciou parcialmente aos 13 anos e se toalizou aos 24 anos. Foi preciso realizar um processo de alfabetização através do método braile , oferecido pela APAE (Associação de pais e amigos dos Excepcionais) em Mariana. O jovem sempre se interessou por atividades culturais e pela aquisição de novos conhecimentos. Porém, em uma visita ao museu dos Inconfidentes na cidade de Ouro Preto, percebeu que aquele rico patrimônio histórico da humanidade não possuía estrutura para receber portadores de deficiência física ou visual. Inconformado com aquela situação decidiu que era necessário tomar alguma atitude para permitir a acessibilidade a todos os espaços. Com as  diversas reivindicações, incluindo a de Anderson, o Museu dos Inconfidentes, atualmente, oferece suportes como rampas para usuários de cadeiras de rodas, placas de baile e áudio para que os deficientes visuais possam ter um melhor acesso.

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  Em Dezembro de 2000, entrou em vigor a legislação federal de número 10.098, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, buscando promover a liberdade de movimento e circulação com segurança das pessoas. Como morador de uma cidade histórica, Anderson ainda encontra muitas barreiras que pela lei não deveriam existir, indicando que ainda há muito trabalho a ser feito pelo órgãos públicos para a aplicação efetiva desta lei. Mesmo reconhecendo que exista uma dificuldade e burocracia maior no processo de reestruturação de cidades com construções e estruturas muito antigas, como Mariana e Ouro Preto, ele observa que são também elementos básicos que limitam sua mobilidade. Sinalização adequada nas ruas, semáforos sonoros e indicadores de placas baixas são itens que não modificaria a arquitetura na cidade mas que em muito contribuiria no deslocamento dos portadores de deficiência visual nessas cidades.

  A cidade de Mariana, não possui passarelas para deficientes, e as ruas e calçadas por serem construções do período colonial brasileiro, constituem obstáculos naturais para os deficientes e também não possuem instrumentos de adaptação e mobilidade para os deficientes. Por ser uma cidade histórica, o seu crescimento desordenado não permite uma tramitação adequada.

  A prefeitura de Mariana foi contactada, mas não se posicionou sobre a acessibilidade na cidade, até o fechamento dessa matéria.

Superando as barreiras e construindo um mundo igualitário

  Decidido a ser um bom profissional que possa contribuir na elaboração e aplicação de projetos e leis que auxilie os demais portadores de deficiência, Anderson iniciou em 2012 o curso superior de Turismo e almeja desenvolver ainda na graduação, um projeto de acessibilidade a todos os museus de Ouro Preto e região. Faz parte também da AMAC (Associação Marianense de Acessibilidade), juntamente com alunos de diversos cursos da UFOP, a associação que visa promover acessibilidade a todos que possuem necessidades especiais de locomoção como gestantes e idosos.

   Anderson passou por dificuldades, no início do seu curso, muitas coisas ainda precisam ser melhoradas e trabalhadas, principalmente o próprio espaço físico da Universidade que apesar das obras de modificações ainda é inadequado, além de relatar a sua carência quanto ao acesso aos materiais didáticos. Outro fator que o preocupa é a falta de preparação dos profissionais de dentro da Universidade que não conseguem lidar devidamente, com os portadores de alguma deficiência. Anderson está atrasado no curso, pois já perdeu algumas disciplinas devido a indisponibilidade de materiais.

  Um exemplo de vida é José Roberto Ribeiro com 54 anos, pós graduado, analista de sistema, e atualmente já está há seis anos aposentado, possui três faculdades, e trabalhou em uma empresa por dezenove anos como programador de computador.

  Desde quando chegou em Mariana-MG teve a ideia de fundar uma associação, com os professores do ICSA. Assim com a sua força e determinação com o projeto foi crescendo e a associação nasceu em setembro de 2013 com a sua eleição para a presidência.

  Existe um registro de associados, que é totalmente gratuito, com o objetivo de que toda a população faça parte, e possa atingir uma demanda de pessoas, para ser apresentada de acordo com as políticas públicas e projetos ao Prefeito da cidade. Levantando questões como o que pode ser feito para melhorar a acessibilidade da cidade, por que a Amac é uma associação que busca a melhoria de acessibilidade, não só arquitetônica, como também mais acessibilidade de informação, acesso a educação, a saúde, ao transporte, ao lazer, José diz que “a nossa luta é a acessibilidade que é um direito de todos.”

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  A Amac já possuiu o próprio CNPJ. O prefeito Celso Cota, da cidade de Mariana, apoia a associação, assim também como as secretarias, e a câmara da cidade, que estão abertas para as propostas de projetos de acessibilidade, segundo relatou o presidente da associação.

  Quando José tinha 19 anos, formando técnico em agropecuária, teve que fazer uma cirurgia muito delicada na coluna, a partir disso ele passou a andar com o auxílio de bengalas ou cadeira de rodas, e relata que antes da cirurgia jogava bola e depois passou a viver em um mundo bem diferente. Em toda a modificação na sua vida, José luta para que haja uma melhoria onde ele vive, por que “eu vejo não a deficiência em mim, mas a deficiência está no sistema”, as vezes ele quer ir em algum lugar no centro de Mariana e se depara com algumas dificuldades arquitetônicas, como escadas e prédios sem elevadores. Além do preconceito, pois a sociedade não entende que a pessoa com deficiência, não esta doente, só possuiu limitações.

  Os desafios que encontra na cidade de Mariana é a construção arquitetônica da cidade que dificulta o seu deslocamento, mas relata que pessoalmente gosta muito das pessoas da cidade, as considera muito solidárias, nesse convívio de  três anos morando na cidade.

  Sobre a lei de acessibilidade e sua aplicação José relata, que falta demanda para pressionar o poder público, e as vezes o poder público quer modificar a estrutura da cidade, mas não sabe como. José como Presidente da Amac, possui a função de apresentar as demandas de forma efetiva, para que a Prefeitura possa estar atendendo o pedido de auxilio na locomoção de quem possui essas limitações e dificuldades. Segundo ele para que a lei seja aplicada é necessário haver demanda da população para pressionar a efetivação da lei.

 José observa que, a sociedade não está preparada para lidar com a diferença, mas que através de adaptações da estrutura artquitetônica, conscientização e divulgação, isso pode mudar. Por que a ideia é fazer uma ponte através de instituições que contribuam com o poder público e o privado. A participação da população auxiliaria o crescimento das entidades envolvidas, na busca da igualdade, por que todos são iguais nas diferenças.

  As reuniões da Amac ocorem no ICSA – Ufop, ou no salão de convenções de 15 em 15 dias , qualquer pessoa que tenha interesse pode se associar, as divulgações são feitas no Facebook.

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   Aurea Maria de Oliveira Bueno, de 54 anos, com a sua formação de Terapeuta Ocupacional/ Técnica em Orientação e Mobilidade/Especialista em Saúde Mental, há mais de 30 anos, destaca em sua área as dificuldades que os profissionais tem em lidar com as diferenças, “há um despreparo dos educadores com a  deficiência visual e a omissão dos gestores em cobrar e viabilizar esta qualificação.Além da desinformação e a falta de divulgação de informações que poderiam facilitar a convivência interpessoal.” Afirma que os grandes veículos de divulgação em massa deveriam realizar uma divulgação constante sobre esse assunto.