“Liberdade ainda que tardia”

Frase da bandeira dos Inconfidentes ilustra a insatisfação de moradores de Ouro Preto com a solenidade do 21 de abril.

 

Por André Nascimento, Daniela Faria, Gabriela Santos, Mariana Botão e Stela Diogo

Dona Efigênia e a Fanfarra da Escola Izaura Mendes no 21 de Abril Popular. / Imagem: André Nascimento.

A Inconfidência Mineira é um feriado nacional de importância significativa no estado de Minas Gerais. Em todo 21 de abril ocorre uma solenidade cívica em homenagem a José Joaquim da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, por sua atuação na conjuração contra o domínio português, que resultou no seu enforcamento em 1789 na cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto.

No entanto, faz tempo que a população ouro-pretana está insatisfeita com a cerimônia oficial que transfere, simbolicamente, a capital mineira para Ouro Preto, já que ela reúne várias autoridades políticas, mas deixa de fora quem mais gostaria de participar, a população.

Engajada na luta pela igualdade de todos os cidadãos, Efigênia dos Santos Gomes, conhecida como Efigênia Carabina, apoia todos os eventos que solidificam a imagem da cidade de Ouro Preto como palco de importantes lutas pela liberdade. Por ter nascido no mesmo dia em que se lembra da morte de Tiradentes, brinca que este encarnou muito tempo nela, e lhe deixou como legado os mesmos pensamentos de luta pelo progresso do país. Porém, o amor pela data se esvai quando o assunto é a solenidade oficial que acontece todos os anos. Dona Efigênia vê como uma grande “palhaçada”, que não faria diferença se não acontecesse. “Eles deveriam fazer isso na cidade sede do governo (Brasília), sem precisar vir para Ouro Preto. Porque aqui, infelizmente, se torna um palco iluminado para os ‘de fora’ contemplarem, sem nos deixar nada no final”.

Após um processo burocrático desgastante, Dona Efigênia conseguiu participar da solenidade deste ano, mas não se desfez da imagem negativa que já tinha do evento. “Vi um dos políticos dormindo no palanque, durante a cerimônia, mostrando um verdadeiro descaso com o que estava acontecendo.” Sua maior indignação é o paradoxo no discurso dos governantes que pregavam a liberdade e, ao mesmo tempo, impediam a participação do povo, com grades de isolamento e seguranças.

A indignação de Dona Efigênia é um sentimento comum entre muitos moradores de Ouro Preto. Um grupo de, aproximadamente, 50 pessoas, chamou atenção ao exigir seus direitos que foram deixados de lado para a realização da cerimônia do dia 21 de Abril. Uma delas é a arte-educadora Fany Magalhães. Moradora de Ouro Preto desde 2010, diz que sempre viu o evento acontecer de forma fechada. “Abrimos a nossa casa para uma festa e somos colocados para fora. Se no discurso eles falam em liberdade e democracia, por que na prática nos excluem e nos calam?”. Segundo Fany, a produção do evento acontece durante duas semanas e gera mudanças no trânsito de pessoas e carros em uma das áreas de principal circulação da cidade, o que interfere diretamente no direito de ir e vir dela e de muitos outros ouro-pretanos.

A praça Tiradentes já foi berço de uma série de protestos. Segundo a Folha de São Paulo, a participação popular na solenidade do 21 de Abril sofreu restrições no mandato de Aécio Neves como governador, após manifestações contrárias a sua gestão. Hoje o evento é restrito a convidados, sem espaço para o povo. “Um aparato policial absurdo nunca visto, que nos faz pensar do que eles podem ter tanto medo. Com a população de Ouro Preto insatisfeita e a praça, símbolo de liberdade, cercada e ultrajada com discursos hipócritas e eleitoreiros, como não ser contra?”, destaca Fany.

Ao invés de discursos e grades, livre acesso à praça. / Imagem: Daniela Faria.

21 de abril popular 

Uma semana depois do evento oficial, a praça Tiradentes foi palco do 21 de Abril Popular, iniciativa da população em comemoração à Inconfidência Mineira. Com o objetivo de aproximação e apoio dos nativos para a manutenção da história de Ouro Preto, Flávio Andrade, um dos organizadores, explica que a diferença da cerimônia do 21 de Abril Oficial e o Popular foi a ausência de discursos e a diversidade de atrações. O evento, sem grades, contou com apresentações artísticas, exposições, brincadeiras e momento espiritual. As homenagens foram feitas a pessoas que nasceram e vivem em Ouro Preto, premiados com um diploma de reconhecimento e flores, ao invés de medalhas. Pessoas de vários lugares se reuniram na Praça Tiradentes compartilhando o sentido de libertação criado pela Inconfidência Mineira.

Fany Magalhães se alegra por as pessoas estarem se mobilizando politicamente e acha a iniciativa positiva. Mas sente que comemorar em uma data diferente é ser um pouco conformista: “Só ficarei contente no dia em que pudermos comemorar o 21 de abril no dia 21 de abril”, esclarece.

A Câmara Municipal de Ouro Preto foi um dos órgãos que apoiou o 21 de Abril Popular. Como funcionária, Dona Efigênia também esteve lá, mas acredita que apenas isso não atingirá os organizadores do evento oficial. Por preferir que a mobilização acontecesse no dia da comemoração, desabafa que as pessoas que deveriam ver a força e a vontade de representação da população ouro-pretana já tinham ido embora: “A população deveria ter tomado as ruas no dia do evento, tentado voltar ao que era antes. A Inconfidência Mineira, pela lei e pela história, lutou pela liberdade e não pela privação do direito de ir e vir dos cidadãos”, finaliza.

Apresentações artísticas atraíram pessoas de todas as idades. / Imagem: André Nascimento.

A assessoria de Comunicação da Prefeitura de Ouro Preto e a assessoria do senador Aécio Neves foram procurados para esclarecimentos sobre a realização do evento oficial. Até o fechamento da matéria não obtivemos resposta.

Edição Final: Gabriela Santos

Reportagem: André Nascimento, Daniela Faria, Mariana Botão, Stela Diogo.

Imagens: André Nascimento e Daniela Faria