Comércios antigos em Mariana e Ouro Preto

Por Gabriela Ramos, Laura Nobre, Fábio Melo, Maria Elisa Ferreira e Taíssa Faria

Com mais de 50 anos de tradição, alguns comércios de Mariana e Ouro preto, apesar do decorrer do tempo e das mudanças, continuam de portas abertas e com seus fieis clientes. Fomos em busca de algumas histórias que compõem um passado rico e importante para região dos Inconfidentes.

Com pouco mais de cinco décadas à frente da primeira padaria de Mariana, a Marianense, Dona Naná nos contou histórias da evolução do comércio na cidade. O que antes era um vilarejo, com uma loja que cumpria o papel de várias outras, hoje é fonte de renda com turismo e histórias que nos fazem imaginar a realidade de 50 anos atrás. A entrevistada nos confidenciou ainda que guarda lembranças como fotos e um caderno com o nome de todos os antigos clientes da Marianense. O que você vai ler agora são relatos de um passado não muito distante e importante para a cultura de todos os cidadãos marianenses.

Por Fábio Melo

#tecer – Há quanto tempo existe a Padaria Marianense?

Dona Naná – Eles falam que foi a primeira. Mas eu não sei, porque a minha irmã, Vicentina da Costa, comprou já faz uns 50 anos. Antes ela pertencia ao Sr. José Eufrázio, era uma família grande de Mariana, inclusive tem a advogada aposentada, Benigna, que se formou em São Paulo e é filha do José Eufrázio. Compramos na mão deles, uma família enorme, tradição de Mariana.

Em todo esse tempo, o comércio de Mariana mudou muito. Muitas novas lojas surgiram e outras desapareceram, mas vocês estão aqui, firmes e fortes. Qual o segredo para este sucesso?

Mudou muito! Aqui era só essa, e onde existe a Lafayete (outra padaria), que pertencia ao Sr. Abrão. Eram só essas duas padarias. O segredo, claro, é tratar bem as pessoas e a perseverança no local, porque nós nunca saímos daqui. Quando compramos tinha um depósito desta padaria ali onde é o restaurante “Burguer King” (King’s Burguer). Ali tinha um cômodo bem “pelejadinho”, mas esse dono de que compramos tinha um depósito lá. Nós ficamos um tempo, depois não achamos que era vantagem ficar ali só para completar, aí ficamos só aqui, não saímos para lugar nenhum. Estou aqui esse tempo todo.

A Padaria Marianense é um negócio de família? Podemos afirmar isso?

É tradição de família! Porque compramos de família, ele comprou de família, Sr. José Eufrázio, um meninão. Tanto que não era nem este tipo de padaria, era meio “tocada”, mas era a padaria dele. Depois passou para o Sílvio Ribeiro, arrendada. Mas terminou o arrendamento, e Sílvio entregou para ele, aí a compra foi na mão do Sr. José Eufrázio. Ele foi dono deste prédio e onde está o Eldorado (supermercado); era uma casinha bem pequena.

E hoje, qual a maior diferença em relação ao comércio de 50 anos atrás? Melhorou?

Muuuito! Não tem nem comparação! Quem conheceu Mariana quando nós chegamos aqui… era um arraial. O comércio cresceu muito. Aqui a reforma foi enorme, que não era desse tipo aqui. Não tinha este azulejo assim, não tinha este piso, quando chegamos aqui era assoalho (dona Naná apontando para a parede e para o chão). Isso é muito importante para vocês, né? Era assoalho e era muito bem enceradinho com a gente. Com eles (antigos donos) não, eles passavam pano. E também não era assim baixo, precisava da gente colocar banquinhos, tipo dali do açougue (apontando para o açougue em frente à padaria). Esse terreno era mais alto que a rua, portanto, ganhei na reforma antes do “Patrimônio” chegar, do meu vizinho ali, de tombar aqui, porque o terreno era alto e a gente precisava de por, as velhas não conseguiam subir na padaria assim.

E com relação aos seus clientes? São sempre aquelas mesmas pessoas?

Os antigos são. Porque os antigos que morreram, mas os filhos, os sobrinhos, os netos, aquele pessoal. Claro que tem uma padaria lá no Rosário, então… Antigamente não tinha missa de manhã na Igreja do Rosário, então aqui era aquela fila para comprar pão. Na de lá debaixo não era tanto, então eles passavam aqui pra comprar leite. O leite era na lata, tirava com caneco e ficava mais de 200 vasilhas de leite, daquelas leiteiras de alumínio que vocês são jovens e não conhecem. Aquelas leiteirinhas de 5 litros. Vendia o leite, vendia o queijo, verdura. Pão era na unidade, aquelas bisnagas… Hoje é bisnaga, ainda fala bisnaga, né? Agora fala é baguete.

A padaria tinha de tudo, não é? Era quase um mercadinho?

Tinha de tudo, de tudo, de tudo. Agora, de certas épocas para cá a fiscalização mudou muito. A gente vendia comprimido, vendia de tudo. Aqui não tinha azulejos, era pintura. Os móveis já trocamos três vezes. Aí os azulejos, aqueles quadradinhos assim, estampadinhos de azul com fundo, era até a metade (da parede). A gente ainda encontra destes no Cemitério dos Azulejos, em BH. O piso era todo de assoalho. O assoalho e os barrotes eram tão bons que nós mandamos lá para a roça, aí colocamos outro piso, uma cerâmica, que não precisava encerar.

Nestes anos todos, teve algum fato com os clientes que foi muito engraçado, que foi interessante?

Tem o Sr. Lolô Lemos, pai do Marcinho Lemos. Então, no futebol, ele sempre me chamava de Cruzeirense, e ele, Atleticano. Brincava muito com minhas funcionárias, sempre pegando brincadeira de casamento… São aqueles clientes marianenses mesmo, essa turma toda marianense antiga foram fregueses aqui. Tenho um caderno com o nome de todos eles, o primeiro ferroviário, todos eles.

E você percebe que hoje existem muito mais turistas na cidade?

Claro. Assim, há uns quatro anos afundou. Os quatro anos daquela política que entra prefeito e sai prefeito (cinco prefeitos em quatro anos corridos), afundou um pouquinho. Agora está renovando, está subindo de novo.

Dono do primeiro comércio da rua mais conhecida de Mariana, a Rua do Catete, o senhor Alípio Faria nos contou um pouco sobre a Agropec, fundada em 1967. Especializada em materiais do ramo agropecuário e veterinária, a loja fora criada em uma época bastante propícia para o ramo. Ele nos contou também como faz para manter a empresa há tanto tempo, mesmo após as mudanças ocorridas na cidade.

Por Maria Elisa Ferreira

#tecer – O senhor mantém a mesma característica que a loja tinha quando a criou?

Alípio - Sim, desde que fundei a loja. Era o prédio todo, mas agora que diminuiu o serviço aluguei algumas partes. Hoje tenho apenas essa loja, eu trabalhava com materiais de construção, produtos agrícolas, ferramenta, botina, parafuso.

O senhor gosta de trabalhar na Agropec? Eu gosto de tudo. Todo trabalho que você pega pra fazer com gosto, você sente prazer em fazer. Se você pegar um que não gosta, ele não vai adiante; para antes de começar. Antes eu tinha uma padaria, a Lafayete, cheguei a fazer mais de 100 mil sacos de farinha por dia, e também possuía um sítio. Após algum tempo, percebi que gostava mais do sítio, então decidi vender a padaria e montar algo no ramo agropecuário: fundei a Agropec.

O senhor investiu em alguma nova tecnologia para manter a Agropec?

Investia em mim, então a mantenho graças à minha experiência. Minha universidade foi “cara”, muito mais cara do que a sua, porque eu aprendi sozinho.

Como o senhor conquistou os clientes mais novos, e como faz para manter os mais antigos?

Os clientes antigos já estão acostumados, tudo o que eles procuram encontram aqui na loja. E os mais novos também, já que são poucas as lojas, hoje em dia, que têm variedade de materiais como a minha. Também trabalho muito para mantê-los.

O senhor pretende deixar a loja para seus filhos?

Meus outros filhos não residem em Mariana, então é a Jacília quem trabalha na loja e é a responsável agora. Eu apenas ajudo.

O que o senhor pensa a respeito dos comércios que vêm surgindo na cidade?

Foi bom porque deu mais vida à cidade. Agora, a criatividade é pouca, todo mundo quer vender a mesma coisa, e essa já não é a minha política. Eu quero vender uma coisa e outra. O que você quer comprar, uma peça de máquina, uma bota, uma botina, uma correia. Eu tenho mais de cinco mil itens aqui dentro.

Prestes a completar 60 anos, o Garapinha foi passado de pai para filho, e no decorrer desse tempo a loja se tornou tradicional e passou a ser referência de doces e queijos mineiros, além da famosa garapa que é um dos produtos mais procurados da loja. O ”Garapinha” existe há quase 60 anos, e foi passado de pai para  filhos. Cláudio Manuel Mirando, atual dono, casado e com um filho de dois anos, espera que o filho também siga os seus passos. Cláudio também nos contou toda história do surgimento da loja e de como a mantém até os tempos atuais.

Por Taíssa Faria

#tecer – Como surgiu o estabelecimento “Garapinha”? E quem começou com esse ideia?

Cláudio - Tudo começou com o meu pai. Ele se chamava Amantino Firmino de Miranda e chegou a Ouro Preto com seus 18 para 19 anos. Começou, em 1953, a vender café moído na hora, queijos e caldo de cana, por isso “Garapinha”. O local onde deu início à vida de comerciante era bem pequeno, como se fosse uma garagem mesmo, por isso não dava para diversificar a venda de produtos, pois ainda não havia um espaço adequado. Logo mais tarde, casou-se com a minha mãe, Dona Odila Batista Miranda, e junto com ela continuou “tocando” os negócios. Um ponto curioso, é que os dois eram primos de primeiro grau. Tiveram nove filhos, todos nascidos em Ouro Preto. Todo o sustento de nossa família vinha do Garapinha. Eu também, desde pequeno, acompanhava meus pais nos negócios. Eles moravam no bairro do Pilar mas fui criado mesmo aqui na loja, pois vinha todos os dias com meu pai ao trabalho. Mas deixo claro que eu não era obrigado a vir, mas sim porque eu gostava de ver meu pai e minha mãe trabalhando juntos. O comércio foi crescendo aos poucos. Meu pai faleceu muito novo, com 57 anos, e alguns meses depois minha mãe também. O comércio Garapinha acabou ficando para nós, os filhos. Mas nem todos se interessaram em dar prosseguimento ao comércio. Então eu e minha irmã continuamos “tocando” o negócio dos nossos pais e fizemos o estabelecimento crescer ainda mais. Aquela lojinha que mais parecia uma garagem dos fundos, como eu disse no início, atualmente conta com cinco andares e dispõe de um receptivo restaurante, com comidas tipicamente mineiras. Continuamos vendendo os queijos, e o bom e velho caldo de cana, incluindo os vários doces em compotas que também fazem muito sucesso em Ouro Preto, inclusive com os turistas, que sempre fazem questão de voltar toda vez que visitam a cidade.

Saber atrair a clientela requer um esforço e precisa ter um jogo de atrativos. Pelo que eu percebi a loja está sempre cheia de clientes, mas vocês continuam com clientes fieis, aqueles que compram aqui há muito tempo?

Sim, com toda a certeza, inclusive são vários, mas temos clientes que compram conosco há muitos e muitos anos, que acabaram se tornando nossos amigos pessoais.

Dentre esses clientes fieis, qual aquele que você destaca um maior apreço?

Eu tenho clientes da época do meu pai ainda. Eu citaria com muito carinho o Celso Delamorio, que faz questão de estar aqui toda a semana. Eu fico muito honrado de ver que clientes que foram da época meu pai depositaram a confiança em mim para poder continuar os negócios e ainda frequentam aqui sempre que possível!

Tem algum fato curioso, alguma coisa engraçada que o senhor lembra e gostaria de nos contar?

Nossa, aconteceram várias coisas. Não sei se é um fato curioso, mas acho legal contar. A gente tem muita amizade com os estudantes aqui, nas repúblicas e nossos vizinhos da rua Paraná. Eles formam mas fazem questão de voltar para nos visitar, principalmente na festa do “12 de outubro”, e são muitos ex-alunos que vêm e me cumprimentam, compram muitos doces para levar para casa, pois a maioria desses estudantes normalmente não são de Minas, mas a gente acaba esquecendo os nomes, os apelidos porque são muitos mesmo. Eu fico muito feliz de saber que eles também lembram daqui e de mim. Mas agora, me recordando, tem um fato curioso que aconteceu quando eu tinha meus sete anos: o teto da nossa loja, naquela época, era de amianto, e não era algo de boa resistência e qualidade. E me lembro de uma vez um pedreiro estava arrumando uma casa vizinha, quando ele levou um tombo e caiu em nosso telhado, mas como eu disse, o telhado não era bom e ele acabou cedendo junto com o pedreiro, a loja já estava aberta e já tinha clientes tomando café. Lembro-me que foi um alvoroço danado e o assunto repercutiu um bom tempo.

Acredito que não deve ser fácil cuidar de uma loja desse porte, com vários tipos de comidas, doces e bebidas. Lidar com fornecedores também deve ser algo complicado. Mas apesar disso, qual a sensação que o senhor tem de ver loja completar 60 anos?

Acho legal, acho muito bom, pois ainda continua na família e espero que assim seja por muitos anos. Passamos por dificuldade quando perdemos nossos pais, pois ficamos um pouco perdidos sem o auxílio deles. Pensamos em até desistir e vender; compradores não faltaram. Muitas pessoas queriam comprar a loja, mas eu e minha irmã sentamos, conversamos e resolvemos que íamos dar a volta por cima e continuar com algo que nossos pais construíram com tanto esforço e suor e deixaram pra nós, os filhos. E tenho certeza de que vai continuar na família.

O senhor pretende que o seu filho dê continuidade ao comércio? Acha que ele também vai se interessar igual o senhor quando era mais jovem?

Sim, eu espero que sim, mas eu vou tentar e quero que ele tenha um ensino superior e seja profissional também. Faço que nem meu pai fazia comigo, mas trago ele apenas aos sábados. Já mostro pra ele, mesmo novinho que eu adoro o que eu faço e ele já demonstra que também gosta. Ele curte muito quando eu trago ele, e será um honra ver meu filho “tocar” algo que meu pai me passou, e quem sabe futuramente eu passar para meu filho.

Em todo esse tempo de comércio de Ouro Preto, muitas lojas já se fecharam, outra abriram mas não tiveram a mesma prosperidade. Mas o Garapinha continua aqui há quase 60 anos. Qual é o segredo para manter esse comércio por tanto tempo?

Eu acredito que seja da infância mesmo, meu pai me trazia pra cá desde pequeno, então eu já me harmonizava e fazia gosto com o mundo do comércio. E sem contar do prazer que eu tenho de poder atender os clientes, de poder sempre estar proporcionando o que eles precisam e gostam. Inclusive, meu estoque de cana acabou essa semana, e nesse final de semana eu fui até a roça para poder buscar mais. E eu adoro fazer isso, é algo que eu também faço desde quando eu era garoto junto com meu pai. E eu acredito que seja isso, o prazer de fazer algo que eu já via desde pequeno, meu pai também demonstrando o prazer de estar trabalhando aqui.

O senhor pretende parar? Ou vai continuar até quando não puder mais?

Parar eu acho difícil, eu estou um pouco cansado, mas junto com minha irmã, a gente reveza as figurinhas e dá tudo certo, porque Deus também está me dando saúde e isso me faz querer continuar.

Qual o produto que o senhor tem de diferente na loja e que mais gosta de vender?

Com toda certeza são os doces e queijos. Eles são minhas especialidades, e só vendo aqueles que são tipicamente mineiros. Os doces eu busco em São Bartolomeu, referência em doces de compota e já bem conhecidos no mercado. Mas também abro espaço para novos fornecedores, com novas qualidades em produtos, como uma família de Moedas, onde busco doces e queijos que estão sendo muito vendidos aqui na loja. Mas com eu disse, sempre busco mesmo aqueles que são produzidos em Minas, e em nossa região, a prioridade da nossa casa é destacar a comida mineira, sempre.

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Edição Geral: Gabriela Ramos

Edição de Abertura: Laura Nobre

Reportagem: Fábio Melo, Maria Elisa Ferreira e Taíssa Faria