PATRUS ANANIAS FALA SOBRE A POLÍTICA NACIONAL

Por Jessica Michellin e Maysa Souza

Fotos: Mateus Meireles

Além de político, Patrus leciona Introdução ao Direito na Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais (Puc-Minas). Como professor, acredita que o ensino superior público melhorou muito, mas, ainda faltam alguns temas a serem debatidos. Confira o trecho da entrevista em que ele fala sobre o assunto.

RC: Como o senhor avalia a educação básica pública brasileira?

Eu acho que precisa melhorar muito. No governo Lula, nós tivemos uma avanço extraordinário no que refere à educação superior, com a criação do Programa  Universidade para todos (Prouni), Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), criação de novas universidades, além de ter avançado muito no ensino técnico profissionalizante, com a expansão dos Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet). Mas nós ainda temos um grande desafio. Para começar eu defendo que se integre a educação com as creches. No Brasil, hoje, nós temos uma educação que começa a partir do 4 anos de idade. Mas e de 0 a 4? As crianças ricas, bem nascidas começam a ir pra creches com meses e as famílias ricas nem sempre precisam, porque tem muito mais recursos para contratar trabalhadoras, babás. É na creche que a criança vai se desenvolvendo com brinquedos pedagógicos, sociabilidade, atividades esportivas e lúdicas. E nas famílias pobres, isso é uma necessidade psicossocial. Onde é que uma mãe pobre e trabalhadora vai deixar o filho? Então, eu acho que nós temos que enfrentar esse desafio, que envolve também assistentes sociais, psicólogos. Acho que a Dilma colocou bem isso de valorizar a educação infantil, a partir dos 4, mas pelo que tenho notado está tendo uma dificuldade das prefeituras de construir terrenos. Além de tudo, a educação é uma questão dupla. Ao mesmo tempo que é um direito da família é um bem para o país. Não podemos pensar no Brasil sem educação. O desenvolvimento do país passa obrigatoriamente pela educação. E, por isso, temos que adotar uma visão mais ampla e integrar a educação com a cultura, com a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico.

O senhor acredita que a nova lei, em que 50% das vagas nas universidades públicas serão oferecidas aos egressos de escolas públicas, irá trazer melhoras significativas para a educação brasileira?

A experiência internacional mostra que sim. Eu pessoalmente tendo a ser favorável às cotas, porque põe o dedo na ferida e chama atenção para o problema. Desse modo, a universidade vai discutir a questão da escola pública; a classe média, que quer ter uma boa universidade para seus filhos, também vai discutir também sobre a escola pública. Enfim, irá chamar a atenção de todos para um problema que precisa ser resolvido. No Brasil, nós estamos “agarrados”. Para melhorar, temos que trazer a classe média. Mas, ao mesmo tempo, para trazer a classe média, temos que melhorar. Porque a classe média tem poder de barganha. E a gente continua lutando por uma escola pública melhor, pelo direito dos pobres, mas é claro que o poder de negociação das classes médias fica mais potencializado. É um assunto delicado, que tem que ser discutido, mas eu vejo que é uma forma de chamar atenção, de falar: “olha, precisamos melhorar isso aqui”. Até para promover o debate, porque se você não abre a cota, tudo fica do mesmo jeito.