O jornalismo e o rádio em transformação

Nair Prata fala sobre o “Ciclo de Estudos em Jornalismo”, o orgulho de ser jornalista e os desafios do rádio 

por Anna Antoun e Emanuel Brandão

A professora Nair Prata é uma das entusiastas do primeiro “Ciclo de Estudos em Jornalismo”, realizado pelo curso de Jornalismo da UFOP nos dias 28 e 29 de novembro em Mariana-MG, para discutir os rumos do curso e pensar sobre a profissão de jornalista. Prata, que é professora da instituição desde 2010, destaca o pioneirismo do evento: “Foi um marco na história do curso, que agora formou a primeira turma. É importante termos esse momento de parada, pra refletir sobre a realidade do próprio curso, olhar o que já foi feito e pensar no futuro”, reflete.

A programação do “Ciclo” contou com quatro minicursos, exibição de documentários, duas conferências, dois debates abertos e reuniões de trabalhos com os professores, que refletiram sobre o papel que o curso desempenha na realidade de Mariana – MG. A presença do professor Elias Machado, da Universidade Federal de Santa Catarina, foi destacada por Prata. “A discussão sobre o ensino de jornalismo no Brasil nos fez olhar pra nós mesmos, para o trabalho que a gente faz. O Elias Machado usou muito a palavra ‘inovação’. A gente não pode ficar parado, colhendo os louros do que nós já fizemos. Temos que inovar. Temos que olhar pra frente, em como nós podemos ser melhores”, comenta.

As discussões do “Ciclo” complementam o debate constante pelo qual a mídia passa. Tanto os profissionais do ramo quanto a sociedade discutem o futuro do jornalismo. “Tenho orgulho muito grande de exercer essa profissão, que não é apenas dar a notícia. É muito mais do que isso. A gente tem um compromisso social. Sou jornalista profissional há muitos anos e eu tenho certeza que não tenho uma profissão que está parada no tempo. O jornalismo que emergir dessas discussões certamente vai ser um jornalismo melhor, que acompanha as mudanças”, constata.

Ela cita como exemplo o rádio, área de pesquisa em que atua, e que não é o mesmo desde que o italiano Marconi o inventou no século 19 e, com certeza, será diferente no futuro. “O rádio foi o que melhor se adaptou às novas tecnologias. A gente tem hoje, 15 anos depois [do advento da internet], um rádio em pleno funcionamento em plataformas multimidiáticas, com um alcance que todos os cantos do planeta podem acessar a emissora de rádio. O rádio na internet não pertence ao poder público, pertence ao cidadão”, destaca. Para ela qualquer um de nós pode fazer uma emissora de rádio sem pedir autorização pra ninguém e fazer a programação que quiser.

Entre os desafios que o rádio terá de enfrentar, um deles é a publicidade. Como colocar anúncios no rádio, que atenda aos anunciantes e se destine ao público certo? A professora pesquisa atualmente novos modelo de negócio que poderão emergir. “Com o rádio na internet nós temos uma audiência pulverizada. Nós vivemos na era da segmentação, do nicho, da teoria da cauda longa do Chris Anderson. Temos rádios com ouvintes espalhados no mundo inteiro. E qual comercial que vai interessar? É o da pizzaria da esquina? É do delivery? Uma rádio na internet anunciava entrega de pizza! É dinheiro jogado fora”, diz.

A relação do ouvinte com o locutor também mudou e tende a ser diferente quanto mais a população tiver acesso à mídia. “Não se fala mais ouvinte, mas usuário. O usuário pode conversar com o comunicador pela webcam. Então, aquela figura mítica do comunicador não existe mais. Agora ele tem um corpo, não tem uma voz apenas. Para o futuro, essas transformações vão se consolidar”, acredita. O futuro do rádio é cada vez mais caminhar em direção a um tripé: não apenas sonoro, mas imagético e pontual.

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A utilização das novas mídias contribui para a democratização da informação

Por Douglas Gomes, Katiusca Demetino e Pamela Moraes 

Ao pensar em “novas tecnologias”, especialmente a utilização da internet é importante pensar de maneira positiva em como esses meios contribuem para um diálogo aberto e democrático. É mais uma possibilidade de refletir, de realizar uma intercâmbio daquilo que, anteriormente, era desconhecido.

O professor, membro do corpo docente da Universidade Federal de Ouro Preto e doutorando em Cinema na escola de Belas Artes da UFMG, Adriano Medeiros da Rocha enfatiza: “Seja a janela da grande rede, seja a janela do festival, seja a janela da pequena mostra de bairro, toda janela é importante, especialmente essa que é tão popular, que é tão próxima de cada um de nós, e que é tão viável; mesmo quem não tem computador em casa, vai numa lan-house com um, dois reais e tem acesso a uma hora de qualquer material ou praticamente todo material disponível na rede.” A produção deste tipo de material, que antes era algo distribuído aos grandes conglomerados midiáticos, se democratizou com a avanço cada vez mais crescente das tecnologias”. Adriano leciona aulas de Telejornalismo e Introdução ao cinema na UFOP e possui dois projetos diretamente ligados ao audiovisual.

Assim como as origens das teorias da comunicação, a introdução do audiovisual como uma forma de transmissão da informação é recente. As primeiras transmissões via Televisão ocorreram a partir de 1935. Nessa época as televisões eram direcionadas apenas às pessoas de prestígio social elevado. Após a segunda guerra mundial os preços caíram e a televisão enfim popularizou-se. A partir dos anos 50 foi criada a TV à cores, mas somente após 1962 tivemos as primeiras transmissões via satélite. Todos esses processos de evolução da televisão foram impulsionados também pela globalização. Outro recurso tecnológico que caminhou de mãos dadas com a globalização foi a internet, que hoje já ultrapassa a televisão como meio de comunicação mais rápido e eficiente.

Da mesma maneira que a internet ,a televisão e o rádio, o cinema é um recurso de transmissão de idéias e comunicação. O cinema foi criado anteriormente a TV e hoje possui técnicas cada vez mais avançadas de produção e reprodução. O recurso cinematográfico começou com a grande vontade do homem se expressar e dividir sua imaginação, mesmo sem recursos tecnológicos avançados conseguiu atrair multidões aos cinemas. Hoje o cinema conta com salas 3D e diversos tipos de produções por toda parte do mundo.

Adriano também ressalta que é inviável atualmente pensar no Jornalismo sem a utilizações dos recursos tecnológicos como as redes e o audiovisual. Ele ressalta, ainda, que estamos diretamente ligados num processo de hipermidias, onde todos estão entrelaçados e interligados e pensando assim é impossível pensar em comunicação sem pensar também no audiovisual. “Hoje, por exemplo, você assiste um telejornal e você é sugerido a entrar num determinado site, ou o site te `linka` com um trecho de vídeo, com um trecho fotográfico, ou você tem uma determinada revista que vai te indicar um artigo que vai aparecer um fragmento audiovisual, então nós, constantemente vamos utilizar desde o instante que a gente levanta, que a gente acorda, até os procedimentos mais complicados de nossas vidas, sempre de uma maneira ou de outra, estão `linkados`.”

Aliado a democratização da informação o cinema é um fluxo transmissor em constante adaptação. Hoje ele alcança diversos meios sociais e transmite para diversas pessoas os mais variados temas. No Brasil não é diferente. As produções nacionais estão em expansão, o governo tem incentivado produções independentes e novas leis tem sido implementadas para atender a esse novo público consumidor e produtor do audiovisual.

Adriano também nos destaca isso em sua entrevista: “Nós temos aí dezenas, centenas de pessoas produzindo por esse país por todas as nossas regiões. As regiões mas pobres hoje já tem a possibilidade de produzir. Nós tivemos aí um grande desenvolvimento de tecnologias móveis, isso foi algo que contribuiu muito; nós tivemos um barateamento de preço”. Para ele esse processo só tem se desenvolver no futuro, ampliar suas formas e aplicações: “Eu creio que, cada vez mais, vamos usar audiovisual, cada vez mais, as pessoas vão incorporar a linguagem do vídeo, do cinema, da imagem em movimento a suas vidas”.

A primeira edição do Ciclo de Estudos em Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto, ocorreu nos dias 28 e 29 de novembro. Com a proposta de uma imersão aprofundada para uma reflexão sobre as formas e os caminhos a serem seguidos no ensino de jornalismo num âmbito nacional, com o foco voltado para as diretrizes internas da instituição, como aprestando na página do evento, as diretrizes dentre outras questões relevantes são: o fomento do diálogo entre os próprios membros do corpo docente para uma construção colegiada das propostas que envolvem o projeto pedagógico, a matriz curricular e as dinâmicas do Curso. Para Adriano essas questões são fundamentais “Nós temos um time hoje em que todos nós fazemos muitos trabalhos, mas ao mesmo tempo estamos pensando em quê podemos melhorar efetivamente, não apenas na aula, mas enquanto seres humanos, enquanto pessoas, e enquanto profissionais nas várias instâncias. Na boa parte do ciclo além da convergência, nós discutimos a possibilidade de daqui a pouco ampliar nossa pesquisa, nossa extensão . Essa ampliação vem no sentido de oferecermos um mestrado, um doutorado e que os alunos de graduação possam, desta forma, estar conosco em outros momentos e que seja um curso em que haja um desejo de aprofundamento de pesquisa e extensão ligados diretamente ao ensino.”

Festival Inconfidentes de Cinema, lançamento oficial da exposição “Pulsando Quimeiras.” / Facebook Festival Inconfidentes

O jornalista não é vítima, ele tem o direito de escolha

por Ariadne Selene, Edmar Borges, Pedro Ewers

Há em torno de 120 cursos de graduação em Jornalismo no país. A cada ano, formam cerca de 5.000 profissionais. Mestre e doutora em Educação pela UFMG, Margareth Diniz, 47 anos, leciona Psicologia da Comunicação na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) desde 2008, considera a formação acadêmica e a existência de vários cursos de jornalismo no Brasil muito importante.

O curso de jornalismo da UFOP é fruto do REUNE, foi fundado em 2008, e seu campus reside no município de Mariana. Ainda está em processo de adaptação. ˜Em Mariana, temos profissionais com boa formação, mestres e doutores com compromisso ético. Os materiais ainda precisam melhorar, mas já esteve pior, está em constante avanço˜, fazendo referência aos laboratórios e à infra-estrutura do curso.

De acordo com a professora, a importância da aplicação do estudo da Psicologia na formação dos alunos do ramo é para os jornalistas se verem como sujeitos, críticos e antenados. “Além disso, eles lidam com sujeitos também, e precisam saber como fazer isso.” Ela acrescenta, ainda, que há diferença entre lecionar aos docentes deste curso e dos demais, declarando que os de jornalismo são mais ligados e possuem mais vivência cultural.

Apesar do número de bons cursos disponíveis, há profissionais com má formação ou formação nenhuma, que atuam de forma anti-ética e desvalorizam a profissão. “Vejo a profissão com muitas amarras, é preciso trilhar-se um caminho mais ético e livre. Existem muitos canais de comunicação poderosos, que ocultam fatos e divulgam informações não-reais.”

Uma situação discutida é que tais canais também desvalorizam a profissão, manipulando a informação e inserindo os jornalistas nesse sistema. Todavia, Margareth discorda “A profissão e o profissional agem com co-influência. O jornalista pode aceitar os termos do sistema ou não, ele não é uma vítima simplesmente, ele pode escolher se submeter ou não, seja um determinado emprego ou a um determinado salário.”

Uma nova ótica do jornalismo

Por Thatiana Zacarias Freitas

 O Jornalismo possui uma perspectiva de futuro que vem sendo modificada com o passar do tempo, devido às mudanças que acontecem no meio comunicativo. A primeira edição do Ciclo de Estudos em Jornalismo, promovida pelo curso de Jornalismo da UFOP foi proposta nesse sentido, pois tem como objetivo discutir os caminhos e as perspectivas do ensino, formação e práticas profissionais em jornalismo.

A professora Marta Maia, quando questionada sobre sua visão de futuro para o jornalismo diz que “o jornalismo não é mais aquela linhagem antiga da emissão e recepção.” Para ela, o jornalismo agora é uma via de mão dupla, onde um fala para um, um fala para muitos, e muitos falam para muitos, possibilitando que as narrativas transitem, tenham um fluxo maior no interior da sociedade, e não sejam completamente dependentes das empresas jornalísticas.

Marta relata o que sempre diz aos novos estudantes de jornalismo: ” há outras possibilidades de narrativas, não é só essa que está aí, que é hegemônica e é importante que vocês percebam isso.” Ou seja, ela quer ressaltar que existem outras formas de falar da informação, do que acontece à nossa volta, outras maneiras de contar histórias, e é nesse sentido que o Ciclo de Estudos em Jornalismo vem a contribuir.

Resistência à técnica e o lado humano da indústria jornalística

Por Marina Geiger, Lorrany Goulart e Raquel Lima

Foto: Polliane Torres

O jornalismo tem sofrido brutas mudanças com a mídia eletrônica, o crescimento da notícia instantânea que faz com que os textos fiquem curtos, condensados e sem muita emoção. O professor José Benedito Donadon-Leal, 53 anos, há 28 é professor na Universidade Federal de Ouro Preto. Morador da cidade de Mariana (MG), fundador do jornal Aldrava Cultural e da Associação Aldrava Letras e Artes, é um dos criadores do estilo poético de nome “Aldravia”, segundo ele “a menor forma de se fazer poesia”. Donadon é um defensor do jornalismo autônomo, onde o jornalista se inclua dentro da matéria e saia um pouco da técnica aprendida na universidade.

Donadon vê o jornalismo atual como algo muito bem equipado, no sentido tecnológico. Segundo ele, no Brasil as ferramentas são bastante avançadas e, pelo menos nesse aspecto, o jornalismo é muito bem feito. O problema está na competência dos jornalistas, os quais possuiriam uma construção discursiva rasa e noções exageradamente técnicas. As grandes mídias e a “indústria do jornalismo” estão afetando os profissionais atuais. Falta humanização da notícia, falta o jornalista que não seja “refém do diagramador”.

Doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo, Donadon acredita que a semiótica ajuda os jornalistas a enxergar melhor o mundo, interligando e relacionando os discursos linguísticos, sociais e culturais.

Como participação no 1º Ciclo de Estudos em Jornalismo, realizado no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), Donadon encaminhou um estudo sobre a formação do jornalista, defendendo que esta deveria ser menos técnica e acha que a realização do ciclo é de suma importância para que haja o diálogo entre docentes e alunos para fomentar pesquisas e movimentar a universidade.”

 

Jornalismo atual: cenário de “opiniões ‘opiniosas’”

“Se algum dia o jornalismo produziu informação, não me lembro”.

por Danilo Moreira e Marília Ferreira

 

Cena do seriado americano ‘The Newsroom’, que ilustra a opinião de Lucilia Borges sobre o jornalismo atual (Crédito: Divulgação). 

Professora do Departamento de Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto, Lucilia Borges é graduada em Design Gráfico, com mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica. Ela acredita que o atual cenário jornalístico não afeta sua área de pesquisa, que é ligada à arte e tecnologia. Mesmo não sendo jornalista, possui uma visão crítica acerca deste cenário. Ressalta a questão da política da notícia e do poder sobre os veículos de comunicação, onde muitas vezes não importa que a população tenha a informação verdadeira e acabe recebendo apenas opiniões.

“Se algum dia o jornalismo produziu informação, não me lembro. O que se vê, desde muito tempo, é apenas divulgação de notícias, com algumas tentativas aqui e ali de crítica, onde a crítica acaba se dissolvendo numa ‘opinião opiniosa’, pessoal, e por vezes vazia”, evidencia Lucilia, tratando o ambiente jornalístico como uma área repleta de visões recalcitrantes, que contrariam a opinião da maioria. Como exemplo, a professora cita o seriado `The Newsroom`, que tem como proposta expor justamente a questão da produção da informação.

Lucilia demonstra a preocupação com as novas formas do jornalismo e com a “preguiça dos jornalistas, viciados no processo da repetição de padrões antigos” e observa que nem a internet conseguiu quebrar essa padronização do processo de produção. Assegura que o jornalismo hoje é um “processo de disseminação de notícias e não de produção de informação” e dentro dessa perspectiva afirma que é fundamental a reflexão sobre a profissão jornalística.

Ouvir e trocar ideias é base para o jornalismo

Presente e perspectivas do jornalismo – 1º Ciclo de Estudos em Jornalismo – Caminhos e Tendências 

por Elis Regina, Paloma Ávila, Di Anna Lourenço

Foto: Rodrigo Pucci

Sempre alegre e receptivo, o professor de Audiovisual e Fotojornalismo no curso de Jornalismo da UFOP, Anderson Medeiros da Rocha, 33, falou-nos sobre o 1º Ciclo de Estudos em Jornalismo – Caminhos e Tendências que aconteceu nos dias 28 e 29 de novembro. Medeiros considera a iniciativa muito importante, pois a base da formação dos futuros profissionais em comunicação se constrói no saber ouvir e trocar ideias, afirma. Citou como exemplo dessa interação a presença dos palestrantes, os professores e pesquisadores Marcos Palácios e Elias Machado, que trouxeram experiências significativas e interessantes sobre os temas debatidos.

Anderson, no entanto, ressaltou a ausência dos alunos. “Fiquei muito surpreso, pois houve uma grande mobilização dos professores. No segundo dia de conferências estavam praticamente todos docentes. Mas não tínhamos público naquele auditório equivalente a uma turma. Isso é profundamente lamentável” pontuou. “Porque é muito trabalho, muita dedicação. Não era para a gente. Era para a faculdade, a instituição. Quem é a instituição? São os alunos. A instituição não somos todos nós. Tudo o que acontece é porque os alunos são importantes.” Deixa claro que o professor é um dos elementos necessários para a boa formação e que os eventos são todos direcionados ao corpo discente. E quando estes não comparecem é frustrante constatar o grau de desinteresse dos alunos do curso.

Em meio a esse desabafo, traça um panorama sobre o que se esperar de sua área de atuação, imagem e produção audiovisual. Afirma que o mercado está em crescimento. “Os computadores são amplamente desenvolvidos para processar imagens. Hoje em dia todos tem um computador e conseguem processar imagens. Os veículos de comunicação estão aceitando que o público mande imagens que estes produziram. Até porque, a pessoa que está em casa muitas vezes é a que está mais próxima da notícia do que o jornalista” afirma.

Neste cenário, em que o consumidor também é produtor de imagens e assiste de perto os fatos ocorridos em seu cotidiano, Medeiros não acredita que essa realidade seja um fator competitivo para o jornalista. “Atualmente, acho que não gera. Por quê? De um lado temos crescimento de novas possibilidades de exibição de imagens: novas TVs, canais e TVs na internet. Com a TV digital vamos ter uma divisão de bandas, com canais dentro de um mesmo canal. Então, de um lado há a maior possibilidade de exibição, e do outro, a participação maior da comunidade, que quer se ver na TV e participar da construção da notícia que ela está vivenciando, está próxima. Do ponto de vista da credibilidade da informação, aí é que começam algumas questões: apuração e ouvir todas as partes. Embora o jornalista não seja uma pessoa 100% isenta, ele não consegue passar a notícia exatamente como ela aconteceu. Isso vale para o jornalista, repórter cinematográfico e fotógrafo. O jornalista é uma pessoa que aprendeu técnicas, supõe-se, para passar as informações da forma mais imparcial possível de todos os lados. Já o “cidadão comum”, não é uma pessoa que tem muito essa noção, ele vai passar a visão dele.” Nesse sentido, Medeiros conclui que cabe ao jornalismo apurar informações que o indivíduo envia para a TV, pois, o que este envia é uma mera ilustração e comprovação. Mas, sempre, tendo em mente o fato de toda a apuração ser dever do jornalista. “Se não, daqui a pouco teremos um jornal que é feito só pelo ‘cidadão comum’. Que não é desmerecimento, mas não é algo profissional e deve ser analisado de outra forma”. É algo amador, que não tem necessariamente a ver com a credibilidade e com a verdade, uma vez que não foi devidamente apurado, defende o professor.

O profissional como produtor de narrativas

Por Luiza Madeira, Mariana Borba e Marina Soares

“Jornalismo em geral está em fase de transição”, afirma o professor de fotojornalismo André Luis Carvalho. O professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) fala sobre sua área de atuação nos rumos do Jornalismo na atualidade. A respeito dessa fase de transição, ele acredita que há um medo sobre para onde vai o jornalismo que se aprendeu a fazer, que é esse jornalismo do papel, impresso. Logo, é um momento de muita experimentação. “É comum em qualquer crise ou transição que se instaure uma série de inseguranças, receios e previsões muito presunçosas”. André mostra-se, porém, otimista quanto às possibilidades de interdisciplinaridade, uma complexidade maior na construção da notícia e das práticas jornalísticas.

 Falando sobre sua área de estudo, o professor acredita que a técnica é responsável pela estética e pela linguagem, mas acima de tudo isso está na própria linguagem, as formas de comunicar, de se expressar. “O profissional é produtor de narrativas. Sobre essas perspectivas, o fotojornalismo tende a ficar cada vez mais em sintonia na saída da redação à pauta, por exemplo, o fotógrafo estará mais ligado ao jornal, ao seu editor, por que a tecnologia permite isso. Por outro lado, isso pode significar um domínio maior no trabalho do fotógrafo, a ponto desse profissional virar um ‘apertador de botões’ tecnicamente despreparado. Tudo isso dependerá das formas de atuação.” André insiste que é preciso avançar: avançar plasticamente, conceitualmente e eticamente nas práticas de jornalismo.

No mês de novembro, a primeira edição do Ciclo de Estudos em Jornalismo na UFOP trouxe a discussão: Caminhos e tendências. Novas perspectivas da prática e teorias do jornalismo foram direcionadas em mesas e debates com os alunos. Dentre os convidados, o professor Elias Machado (UFSC), doutor em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona e o professor Marcos Palacios (UFBA), doutor em sociologia pela University of Liverpool.

 

 

Tecnologia e as novas formas de “ler” um jornal

por Gustavo Kirchner Ferreira

Em meio a muitas mudanças tecnológicas, um novo mundo a ser desvendado por novos jornalistas e, até mesmo, novas formas de se fazer jornalismo, Priscila Borges, professora do curso de jornalismo da UFOP. Na área de planejamento visual, fala sobre as novos desafios que a profissão já enfrenta e enfrentará em um futuro não muito distante.

“O jornalismo tem passado por várias mudanças, o impacto da tecnologia hoje é muito forte, talvez a mudança mais evidente nos últimos anos.” este é um paradigma com que a professora convive e debate. Ressalta também que “todas as formas de fazer jornalismo mudaram”, pois com a internet tudo teve de ser adaptado, textos não são mais tão profundos quanto os de revista ou jornais, telejornais apresentam características bem mais críticas e informatizadas do que antes, o próprio público tem muito mais participação em assuntos que são de seu interesse, podendo fazer uma crítica ao tema segundos depois dele ser postado em algum portal. Resumindo, tudo precisou ser repensado e adaptado para essa nova forma que chegou e determinou seu espaço.

Falando um pouco de sua área de atuação, a professora lembra que antes a montagem de uma página de jornal era totalmente manual, o que demandava muito tempo e esforço, hoje essa montagem pode ser feita totalmente no computador, com uma velocidade muito superior aos tempos passados. As possibilidades alcançadas hoje com a informatização das redações são infinitamente maiores do que as de tempos passados, são mudanças como: sobrepor fotos e textos, determinar tamanhos e limites, artifícios aprimorados com o uso dessa ferramenta que chegou para ficar.

“Digital e impresso conversam numa boa”

Por Aprígio Vilanova, Bianca Bueno e Tamara Pinho

“O I Ciclo de Estudos em Jornalismo foi um momento importante para o crescimento dos professores e do curso como um todo e, como conseqüência, para os alunos. Fica a certeza de que estamos no caminho certo”, afirma o professor Fabricio Marques, do curso de Jornalismo da UFOP. Esse tipo de evento contribui imperiosamente para a formação de profissionais versáteis sendo necessário, segundo o professor “formar profissionais do jornalismo, que a partir daí escolherão seu caminho: como pesquisadores ou profissionais voltados para o mercado”

O professor fez um breve histórico das mudanças que ocorreram no campo de pesquisa do Jornalismo, lembrando que em 2013 serão comemorados 50 anos de fundação, em Recife, do Instituto de Ciências da Informação. Para ele, o ensino de jornalismo mudou muito e nesses últimos 20 anos cada vez mais é possível ver a pesquisa incorporada ao ensino, “o que só traz benefícios para os estudantes e os professores”, argumenta. O professor acredita que mais importante que a obrigatoriedade do diploma de Jornalista para o exercício da profissão é a preocupação em formar excelentes jornalistas, que interfiram de modo positivo na sociedade.

Acreditando que estamos na pré-história da era digital, chega a ser arriscado fazer qualquer previsão sobre os rumos que o jornalismo terá nos próximos anos, define Fabrício. Questionado acerca do futuro do jornal impresso, ele afirma não pensar muito em termos de suporte: “O que temos à disposição são linguagens, e o desafio é procurar usá-las da melhor forma possível. Costumo dizer que a crise não é do jornalismo, mas do modo como ele é feito. Como lembrou Marcos Palacios (professor da Universidade Federal da Bahia – UFBA e um dos palestrantes do Ciclo), McLuhan já dizia, em 1968, que não existe uma mídia isolada. Digital e impresso conversam numa boa”.

Perspectiva e análise do jornalismo por Marta Maia

por Inaê Martins, Natália Goulart, Raquel Satto

“O jornalismo chegou num momento de saturação”, afirma Marta Maia, professora do curso de jornalismo da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), ao refletir sobre o presente e o futuro de seu campo de atuação. Ela atribui essa “saturação” à hegemonia que as empresas jornalísticas detêm sobre os processos de produção do jornalismo e vê nas novas tecnologias um suporte “que possibilita às narrativas transitarem, terem um fluxo maior no interior da sociedade”, ou seja, aquele que era apenas receptor passa a ter sua parte ativa nesse processo.

Nessa perspectiva, ela ressalta que o curso tem a preocupação de compartilhar as informações, sendo mais aberto, seguindo o viés de mostrar aos alunos a pluralidade das formas de se fazer jornalismo, “nós estamos formando jornalistas para o mercado, para a academia, para a pesquisa e para a atuação cidadã”. Também considera importante o momento pelo qual o curso passa: “nós vamos fazer uma reforma curricular pensando a nossa graduação e também em consonância com a pós-graduação” diz Marta ao discutir sobre como o Ciclo de Estudos em Jornalismo, que aconteceu nos dias 28 e 29 de novembro, promoveu reflexões sobre a articulação da pesquisa para se pensar numa possível pós-graduação.

 Para a professora, o Ciclo aconteceu em um momento de amadurecimento em que as experiências e os trabalhos acumulados ao longo de todo o processo de construção do curso se aliam as práticas de constante renovação. “A gente não pode pensar no jornalismo hoje sem olhar pro nosso passado, sem pensar no nosso futuro, tudo está dentro dessa perspectiva”.

 

O Ciclo de Estudos em Jornalismo em perspectivas otimistas

por Ana Amélia Maciel, Leticia Afonso, Sandro Aurélio

O Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) recebeu nos dias 28 e 29 de novembro de 2012 o Ciclo de Estudos em Jornalismo. O evento realizado pelo curso de Jornalismo da UFOP ofereceu conferências, minicursos e debates que tiveram como objetivo discutir caminhos da prática jornalística, suas perspectivas de ensino e formação desses profissionais.

O Ciclo de estudos foi pensado pelo “Núcleo Docente Estruturante ” (NDE), aquele encarregado de pensar o currículo e o curso. Essa idéia tem aspectos de um treinamento, pois é uma oportunidade para que tanto os professores quanto os alunos façam uma atualização e discutam coisas que os preocupam.

Minicursos e debates foram proporcionados aos alunos durante as duas tardes abarcando os temas: Cobertura Fotográfica, Revisão Bibliográfica, Tv Educativa, Movimento Estudantil e Combate à Homofobia. Enquanto isso os professores se reuniram com o professor Elias Machado (UFSC) para discutir a reforma curricular e com o professor Marcos Palácios (UFBA) para conversar sobre a convergência de mídia, como você estuda e como você ensina a convergência nesse jornalismo permeado por tantas tecnologias. “E isso foi legal, porque a gente pode externar preocupações que sentimos tanto do ponto de vista do ensino, quanto do ponto de vista de que tipo de jornalista estamos formando.” disse a professora Hila Rodrigues do curso de Jornalismo da UFOP. No período da noite houve conferências com os professores convidados abordando questões metodológicas sobre a pesquisa em Jornalismo e a influência das novas tecnologias na produção do Jornalismo como memória. Para a professora Hila “foi bem bacana, porque a gente produz histórias, recebe e deixa memórias”.

Quando questionada sobre a discussão entre os professores e os convidados, Hila disse que teve a impressão de que “a gente [curso de Jornalismo da UFOP] é mais ‘bacana’. Eles [professores convidados] vieram de universidades onde o curso de Jornalismo tem mais tempo e eu descobri que a gente é muito criativo, trabalhamos alguns aspectos nos alunos e eles ainda não sabem fazer isso. Porque a gente forma um jornalista sobretudo que reflete, pensa, que não é só mais consciente, é mais gente. É uma abertura para uma maior sensibilidade, para um jeito de olhar que tem haver com o cidadão, e eu achei que nós fazemos isso de um jeito legal. Senti que estávamos à frente deles em algumas coisas, atrás em várias outras. O currículo é algo que a gente aperfeiçoa sempre, o currículo só se faz apanhando.”

Sobre os novos rumos que o profissional do jornalismo está tomando devido à convergência midiática a professora diz ser otimista, “me falam que não agüentam esse meu otimismo doentio, mas acho que ele [o jornalismo] só tende a melhorar, porque amadurecemos como profissão. A gente passou de uma época em que as manchetes eram todas opinativas. Acabei de dizer em sala de aula que a imparcialidade, neutralidade não existe e que a intenção você precisa buscar só como exercício diário. E mais, pelo fato de que hoje você tem um jornalismo em que a participação é elemento inerente, você tem que responder, você não fala sozinho, porque teve uma época, se você pegar esse jornalismo dos anos cinqüenta, que você falava sozinho, sem enxergar ou sem pensar no seu interlocutor. E depois ele foi calado pela ditadura, pra ele surgir novamente ele teve que reaprender a respirar e caminhar. Porque quando você fica parado, quando tem uma força te parando, para recobrar forças você tem que rever uma série de outras coisas. E eu acho que esse cenário de novas tecnologias embora me deixe um pouco zonza, ele tem essa possibilidade do respiro, a gente fica maluco com tanta coisa mas o respiro que eu digo é o respiro da informação. Porque hoje quando a pessoa responde, é igual eco, é como se antes você gritasse e não tivesse eco do lado de lá, e agora ecoa pra tudo quanto é lado, você da um grito e tem um retorno. E você começa uma narrativa que vai ser concluída por um outro e que depois vai realimentar sua própria narrativa e por isso eu acho que caminha para um lado bom.”